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Cotidiano

Você vai me abandonar e eu nada posso fazer para impedir. Você é meu único laço, cordão umbilical, ponte entre o aqui de dentro e o lá de fora. Te vejo perdendo-se todos os dias entre essas coisas vivas onde não estou. Tenho medo de, dia após dia, cada vez mais não estar no que você vê. E tanto tempo terá passado, depois, que tudo se tornará cotidiano e a minha ausência não terá nenhuma importância. Serei apenas memória, alívio, enquanto agora sou uma planta carnívora exigindo a cada dia uma gota de sangue seu para manter-se viva. Você rasga devagar o seu pulso com as unhas para que eu possa beber. Mas um dia será demasiado esforço, excessiva dor, e você esquecerá como se esquece um compromisso sem muita importância. Uma fruta mordida apodrecendo em silêncio no quarto.”

. Caio Fernando Abreu .

João 1,14

Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo
e na humildade de uma alma.
Conheci a memória,
essa moeda que não é nunca a mesma.
Conheci a esperança e o temor,
esses dois rostos do incerto futuro”

. Jorge Luis Borges in Elogio da Sombra .

Fazer para desfazer

Vendo-o colocar os trincos e desmontar os relógios, Fernanda se perguntou se não estaria também caindo no vício de fazer para desfazer, como o Coronel Aureliano Buendía com os peixinhos de ouro, Amaranta com os botões e a mortalha, José Arcádio Segundo com os pergaminhos e Úrsula com as lembranças.”

 . Gabriel Garcia Marquez in Cem Anos de Solidão .

O amor por entre o verde

Não é sem freqüência que, à tarde, chegando à janela, eu vejo um casalzinho de brotos que vem namorar sobre a pequenina ponte de balaustrada branca que há no parque. Ela é uma menina de uns 13 anos, o corpo elástico metido nuns blue jeans e num suéter folgadão, os cabelos puxados para trás num rabinho-de-cavalo que está sempre a balançar para todos os lados; ele, um garoto de, no máximo, 16, esguio, com pastas de cabelo a lhe tombar sobre a testa e um ar de quem descobriu a fórmula da vida. Uma coisa eu lhes asseguro: eles são lindos, e ficam montados, um em frente ao outro, no corrimão da colunata, os joelhos a se tocarem, os rostos a se buscarem a todo momento para pequenos segredos, pequenos carinhos, pequenos beijos. São, na sua extrema juventude, a coisa mais antiga que há no parque, incluindo velhas árvores que por ali espapaçam sua verde sombra; e as momices e brincadeiras que se fazem dariam para escrever todo um tratado sobre a arqueologia do amor, pois têm uma tal ancestralidade que nunca se há de saber a quantos milênios remontam.
Eu os observo por um minuto apenas para não perturbar-lhes os jogos de mão e misteriosos brinquedos mímicos com que se entretêm, pois suspeito de que sabem de tudo o que se passa à sua volta. Às vezes, para descansar da posição, encaixam-se os pescoços e repousam os rostos um sobre o ombro do outro, como dois cavalinhos carinhosos, e eu vejo então os olhos da menina percorrerem vagarosamente as coisas em torno, numa aceitação dos homens, das coisas e da natureza, enquanto os do rapaz mantêm-se fixos, como a perscrutar desígnios. Depois voltam à posição inicial e se olham nos olhos, e ela afasta com a mão os cabelos de sobre a fronte do namorado, para vê-lo melhor e sente-se que eles se amam e dão suspiros de cortar o coração. De repente o menino parte para uma brutalidade qualquer, torce-lhe o pulso até ela dizer-lhe o que ele quer ouvir, e ela agarra-o pelos cabelos, e termina tudo, quando não há passantes, num longo e meticuloso beijo.
Que será, pergunto-me eu em vão, dessas duas crianças que tão cedo começam a praticar os ritos do amor? Prosseguirão se amando, ou de súbito, na sua jovem incontinência, procurarão o contato de outras bocas, de outras mãos, de outros ombros? Quem sabe se amanhã quando eu chegar à janela, não verei um rapazinho moreno em lugar do louro ou uma menina com a cabeleira solta em lugar dessa com os cabelos presos?
E se prosseguirem se amando, pergunto-me novamente em vão, será que um dia se casarão e serão felizes? Quando, satisfeita a sua jovem sexualidade, se olharem nos olhos, será que correrão um para o outro e se darão um grande abraço de ternura? Ou será que se desviarão o olhar, para pensar cada um consigo mesmo que ele não era exatamente aquilo que ela pensava e ela era menos bonita ou inteligente do que ele a tinha imaginado?
É um tal milagre encontrar, nesse infinito labirinto de desenganos amorosos, o ser verdadeiramente amado… Esqueço o casalzinho no parque para perder-me por um momento na observação triste, mas fria, desse estranho baile de desencontros, em que freqüentemente aquela que devia ser daquele acaba por bailar com outro porque o esperado nunca chega; e este, no entanto, passou por ela sem que ela o soubesse, suas mãos sem querer se tocaram, eles olharam-se nos olhos por um instante e não se reconheceram. E é então que esqueço de tudo e vou olhar nos olhos de minha bem-amada como se nunca a tivesse visto antes. É ela, Deus do céu, é ela! Como a encontrei, não sei. Como chegou até aqui, não vi. Mas é ela, eu sei que é ela porque há um rastro de luz quando ela passa; e quando ela me abre os braços eu me crucifico neles banhado em lágrimas de ternura; e sei que mataria friamente quem quer que lhe causasse dano; e gostaria que morrêssemos juntos e fôssemos enterrados de mãos dadas, e nossos olhos indecomponíveis ficassem para sempre abertos mirando muito além das estrelas.

Vinícius de Moraes in Para Viver um Grande Amor

Apenas

Não há inocentes. Apenas diferentes graus de responsabilidade”

Lisbeth Salander, personagem de
Stieg Larsson in “A menina que brincava com fogo”

Tortura

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,

Um punhado de cinza esparso ao vento! …

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!

– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento …

São assim ocos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!

. Florbela Espanca in Livro de Mágoas .

+ Presentes!

Estes dois lindos selos ganhei da querida Ariadne…

do Mil Pedaços:

Este não tem regras, apenas repassar a dois blogs! Então…

e do Anti Conto de Fadas:

Esse tem algumas regras:

- Escrever uma lista com oito características suas ou do seu bichinho:

Minhas calopsitas (Nina e Lelo): São lindas, carinhosas, brincalhonas, comilonas, inteligentes (sim!), limpinhas (elas tomam banho de chuveiro!), dengosas e fofas! ;P

- Convidar oito blogueiros para receber o selinho:

DZ, Poetriz, Samacc, Aquela… , Florescer, To be continued… , Trovador, Teorias Impossíveis.

- Fazer um comentário no blog de quem deu o selo; (ok!)
- Comentar nos blogs ou enviar um e-mail aos que vão receber o selinho. (ok!)

Um dia de chuva é tão belo como um dia de sol.
Ambos existem; cada um como é”

. Alberto Caieiro in Poemas Completos de Alberto Caieiro .

Confraria dos 50

Achei que não fosse conseguir chegar a esse número. Afinal, minha média de leitura anual estava sendo 12, ou seja, mísero um livro ao mês. Vou usar a desculpa da falta de tempo, mas era também um pouco de falta de ânimo. Trabalhava longe de casa, uma viagem por dia. Sem contar as horas de trabalho malucas que incluíam feriados, finais de semana, noites e madrugadas. As horas livres eram usadas pra dormir ou vegetar na frente do computador pra tentar esquecer um pouco a loucura. Às vezes eu vegetava na frente da TV também. Lia também, mas muito pouco e por isso achei que jamais chegaria a marca dos vinte, quanto mais dos cinqüenta. Mas eis que a vida foi por outros caminhos. Mudei de emprego, de ares, fiquei mais próxima de casa, trabalhando em horário de gente normal e aí o vício da leitura me acometeu novamente, agora com tempo suficiente para dedicar a ele. Cheguei aos vinte, aos trinta e finalmente aos cinqüenta. Passei dos cinqüenta com quatro livros de folga. Nem acreditei. Foram leituras muito gostosas. Do lazer à cultura. Do drama ao romance e à comedia. Li autores que não conhecia como John Boyne e seu maravilhoso “O menino do pijama listrado”, Sophie Kinsela e sua coleção hilariante sobre Becky Bloom. Viajei no tempo para a Grã-Bretanha de Rei Arthur e as mulheres magníficas de sua vida em “As Brumas de Avalon” de Marion Zimmer Bradley. Viajei para o espaço com Douglas Adams e seus fantásticos personagens na coleção “O guia do mochileiro das Galáxias”. Fui apresentada a Jane Austen através de “Persuasão”, a Stieg Larsson através de “Os Homens que não amavam as mulheres”, a Sara Gruen através do emocionante “Água para elefantes“. Mas também li autores já meus conhecidos, como Clarice Lispector (sempre!), Caio Fernando Abreu, Baudelaire, Borges. Fiquei amedrontada com “1984” de George Orwell e sua tão terrível sala 101. Ri com Mario Prata e suas “100 melhores Crônicas“. Chorei com John Le Carrè e o Jardineiro mais fiel do mundo inteiro. Enfim,  vivi muito nestas maravilhosas páginas da vida. Agradeço muito a  Paula Silva e Nelida Capela por terem lançado esse desafio e agora quero um novo!!! :)

Feliz Natal e Feliz Ano novo a todos!!!!

Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança,
fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar
e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez,
com outro número e outra vontade
de acreditar que daqui pra frente…
tudo vai ser diferente!”

. Carlos Drummond de Andrade .

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