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Resenha: A Farsa de Inês Pereira


Livro:
 A Farsa de Inês Pereira
Autor(a): Gil Vicente
Editora:
 Global
Páginas: 80

Nota: 3
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

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Desafio Literário!
A Farsa de Inês Pereira, ao contrário de outras obras de Gil Vicente, conta com personagens que correspondem bastante à realidade, sem imagens simbólicas e alegóricas. Os diálogos são naturais e espontâneos, e a obra retrata situações comuns da vida doméstica com um certo exagero, o que a caracteriza como uma comédia.

Não foi, das peças teatrais que li, a que mais me agradou, muito embora tenha achado certas cenas engraçadas e alguns dialogos muito bem elaborados. O que tornou a leitura um pouco desagradável, é que por ter sido escrita em meados de 1500, o português é bastante rebuscado e o texto possui diversas partes em espanhol (sou totalmente avessa a essa lingua).

A história, resumidamente, gira em torno da escolha de Inês Pereira para marido. Inês é uma moça simples e casadoura, mas que possui grande ambição e procura um marido astuto e sedutor. Sua mãe, preocupada com a filha, incita-a a casar-se com Pero Marques, um pretendente arranjado, filho de lavrador. Inês o rejeita por ser ignorante e inculto. Logo, ela conhece Escudeiro, com quem se casa acreditando que enfim encontrara o que desejara.
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Para Nunca Esquecer

– De quantos assassínios estamos a falar?
– Quem sabe? Há um turno de dia e outro de noite, nunca pára. Pelo menos duzentas ou trezentas pessoas de cada vez, e isto só no nosso crematório. Por vezes, é uma vez por dia, outras duas. Muitas vezes os crematórios não dão vazão para queimar os corpos e mandam-nos levar os cadávares para uma clareira do bosque. Içamo-los para um camião e depois é preciso descarregá-los outra vez.
– E enterram-nos?
-Isso exigiria demasiada mão-de-obra! Não querem. Que Deus me perdoe. Regamo-los com gasolina e pegamos-lhe fogo. Depois é preciso apanhar a cinza à pazada e carregá-la num caminhão. Acho que a usam como adubo. Os ossos das ancas são demasiado grandes e o fogo não os consome. É preciso triturá-los.
– Meu Deus…
– Para o caso de alguém não saber… Isto é Aushwitz-Birkenau”. 

. Antonio G. Iturbe in A Bibliotecária de Auschwitz .

Te direi os instantes…

O que te direi? Te direi os instantes. Exorbito-me e só então é que existo e de um modo febril. Que febre: conseguirei um dia parar de viver? Ai de mim que tanto morro. Sigo o tortuoso caminho das raízes rebentando a terra, tenho por dom a paixão, na queimada de tronco seco contorço-me às labaredas. À duração de minha existência dou uma significação oculta que me ultrapassa. Sou um ser concomitante: reúno em mim o tempo passado, o presente e o futuro, o tempo que lateja no tique-taque dos relógios”. 

.Clarice Lispector in Água Viva.


Livro:
 80 anos de poesia
Autor(a): Mario Quintana
Editora:
 Editora Globo
Páginas: 206

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

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Poesia em tudo!
Mario Quintana é de uma doçura infinita. Só de olhar a foto dele atrás do livro me veio um sorriso ao rosto. Tenho para mim (e sei que não posso dizer pois não o conheço intimamente) que Mário era um ser especial. Alguém que vê poesia em tudo, desde as menores coisas até as mais improváveis, só pode ter um coração magnífico e uma alma iluminada!

Neste livro que abrange os 80 anos de poesia do autor, incluindo seus principais livros como “A rua dos Cataventos”, “Sapato Florido” e “Baú de Espantos”, pude notar o quanto quintana tinha a poesia no sangue, conseguia enxergá-la em qualquer objeto e qualquer cenário e foi isso o que mais me chamou atenção nesse livro.

Principalmente quando li “Parada km77”:

…até onde irá a procissão dos postes, unidos, pelos fios, à mesma solidão?

Dentre inúmeras outras tão belas quanto esta. Como é o caso de “A carta”, “O poema”, “Epílogo” e “Crônica”. Mario emociona, cativa com sua escrita simples e tão poética. É impossível não sorrir ou se identificar pelo menos com algo que ele tenha escrito. E para finalizar, uma das coisas mais lindas que já li de Quitana:

“Da vez primeira em que me assassinaram perdi um jeito de sorrir que eu tinha… Depois, de cada vez que me mataram, foram levando qualquer coisa minha…”

Leitura recomendada!

Seres Humanos

Não acredito que existam qualidades, valores, modos de vida especificamente femininos: seria admitir a existência de uma natureza feminina, quer dizer, aderir a um mito inventado pelos homens para prender as mulheres na sua condição de oprimidas. Não se trata para a mulher de se afirmar como mulher, mas de tornarem-se seres humanos na sua integridade”. 

. Simone de Beauvoir in O Segundo Sexo .

Resenha: Apátrida


Livro:
 Apátrida
Autor(a): Ana Paula Bergamasco
Editora: Todas as Falas
Páginas: 338

Nota: 5
(sendo: 1- Não gostei 2- Gostei pouco; 3- Gostei; 4- Gostei bastante; 5Adorei)

 

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Resolvi ler Apátrida pelo tema. Não é novidade para aqueles que me conhecem, pois já sabem do meu interesse por livros com essa temática. E também não é novidade que todos esses relatos infindáveis do horror da Segunda Guerra Mundial e as odiosas atitudes humanas daquela época sempre me deixam emocionalmente abalada. Não foi diferente com este livro. Apátrida trouxe-me lágrimas aos olhos em muitas tristes passagens.

Ana Paula Bergamasco tem uma narrativa embriagante e o livro tem início com uma citação simplesmente maravilhosa:

“__Você é jornalista. Portanto conhece parte da história. Diga-me, em qual local do mundo há vencedores numa guerra? O conflito só existe porque houve fracasso, seja o resultado que ele tiver. Sim, minha querida, os seres humanos são os únicos a compreenderem-se por palavras. Desenvolvem retóricas, dialéticas, gramáticas, filosofia e ética. Produzem os mais diversos tipos de linguagem. Estudam à exaustão a diplomacia e veem-se incapazes de chegar a uma solução pacífica. Os medos, os anseios, a ganância, a soberba, a hybris, a riqueza ou a pobreza impedem que compreendam seus iguais. A nossa forma de ‘inteligência’ fez com que nos transformássemos em predadores. Algozes de nós mesmos. Ainda não consigo entender o grau de loucura com que uma pessoa se reveste para, seguindo ordens de superiores, matar seu igual ou atentar contra a vida de alguém, não importa o quanto este outro seja diferente. Autodefesa? Duvido. A maioria das guerras foram decididas por interesses econômicos. Então, quando há o primeiro ferimento e a primeira morte, não importa se de um soldado ou de um civil, as partes envolvidas se tornaram perdedoras. A vida tem um preço inestimável, imensurável. Nada justifica a sua perda. Desse modo, desconheço qualquer vencedor na Segunda Grande Guerra. Todos tiveram baixas. Todos sofreram muito”.

Entre os cadáveres…

Os livros bombardearam seus ombros, braços, o rosto voltado para cima, um livro pousou, quase obediente, como uma pomba branca, em suas mãos, as asas trêmulas. À luz mortiça, oscilante, uma página pendeu aberta e era como uma pluma de neve, as palavras nela pintadas delicadamente. Em meio à correria e à fúria, Montag teve tempo apenas de ler uma linha, mas esta brilhou em sua mente durante o minuto seguinte, como se marcada a ferro em brasa. ‘O tempo adormece ao sol da tarde‘. Soltou o livro. Imediatamente, outro caiu em seus braços.
– Montag, por aqui!
A mão de Montag se fechou como uma boca, esmagando o livro com selvagem devoção, com descuidada insanidade, junto ao peito. Os homens lá em cima lançavam braçadas de revistas para o ar poeirento. Elas caíam como pássaros abatidos e a mulher permanecia ali embaixo, parada como uma garotinha, entre os cadáveres.

Ray Bradbury in Fahrenheit 451

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